Diante de nossos olhos, é possível perceber que a dimensão cognitiva se torna operante na sociedade contemporânea, enaltecendo as disposições culturais e afetivas do imaginário social. Essa tendência se exprime das mais diversas formas, como, por exemplo, no despertar do desejo por uma determinada marca que é inerente ao ato da compra em si, por não ser motivado no plano consciente. Segundo Morin (2005), é por meio do estético que se estabelece a relação de consumo imaginário.
Nesse sentido, na contextualização como estratégia de comunicação das marcas de luxo, a representação estética exerce um papel importante na articulação relacional entre o consumidor e a marca ao lidar com a percepção sensorial. Desenvolve-se, sobretudo, o grau de envolvimento que perpassa pelas formas-pensamento projetadas na mente humana. Transcende as fronteiras do racional e expande para o inconsciente coletivo quando estamos mais integrados.
Ao invés de teorias, é interessante vivenciar como o fenômeno se manifesta através das diferentes formas de percepção. Em determinado momento, delineando o campo visual deste ensaio, vêm as perguntas: em qual tempo a vida flui? Na verdade, a visão de passado, presente e futuro se funde, deixando a realidade para trás.
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A primeira imagem, a vitrine da loja Lanvin (Paris, 2011), assemelha-se a uma instalação de arte e faz uma alusão ao presente tecnológico. Estabelecendo um paralelo com a dimensão cognitiva, é possível se deixar levar pela vibe tecnológica de um humano “novo”, evocando as ideias de transformações tecnológicas sobre a psique e o corpo.
No meio dessa projeção do imaginário, será utopia ou prenúncio do futuro próximo? Parece ficção, mas é a pura realidade: um em cada quatro alemães (23%) implantaria um chip no próprio corpo desde que trouxesse algum tipo de benefício, revelou a pesquisa realizada pela Associação Alemã das Empresas de Informação, Telecomunicação e Novas Mídias – Bitkom, apresentada durante a CeBIT 2010, maior feira de tecnologia da informação do mundo (Brasil Alemanha News, 2010).
Tal como podemos observar, a informação se confunde com a ficção. Atualmente vivemos em um mundo das significações, do sentido que constitui a cultura como processos sociais. Por outras palavras, tudo está interligado, sendo possível encontrar o real dentro do imaginário e vice-versa.
Já o espetáculo das outras duas vitrines,da loja Bergdorf Goodman (Nova York, 2010), convida o observador a desenvolver a sua própria percepção e a participar de uma experiência temporal não linear ao expor um ET e um dinossauro. Do mesmo modo, como expressão artística, o Instituto de Arte de Pittsburgh (Estados Unidos, 2010) homenageou a cantora Lady Gaga com a obra Gagasaurus Rex em forma de dinossauro.
É interessante mencionar que, no mesmo ano, foram realizadas as exposições Le temps des dinosaures, no Parque de Exposições da Porta de Versalhes, La faim des dinosaures, no Palácio da Descoberta de Paris, e a mostra Dans l’ombre des dinosaures, no Museu de História Natural de Paris, ganhando destaque no Portal BBC Brasil (2010) com a seguinte chamada da matéria: “Dinossauros ‘ganham vida’ em exposição na França”.
Real ou irreal, eis a questão. Por enquanto, a única certeza é de que esses seres habitam o imaginário social.
Percebe-se, portanto, a impermanência e a atemporalidade como alternativas criadas para a evolução do pensamento, a partir do imaginário social.
Se o pensamento esculpe a realidade como obra de arte e a realidade como pensamento dissemina a transformação do homem, esses exemplos fazem pensar que as marcas de luxo transmitem o sentido dos valores socioculturais da sociedade por meio dos signos estéticos presentes no estilo de vida da elite.
Indo ao encontro da investigação de Bourdieu (1971) sobre o gosto da elite com o público do museu, verifica-se que a maior proporção de visitantes provém da classe alta e possui educação superior. Ainda de acordo com o filósofo, a disposição estética se enraíza nas condições de existências particulares, constituindo uma dimensão rara, a mais distintiva, a mais distinguida de um estilo de vida, da relação entre as diferentes classes sociais com a obra de arte na linguagem.
Frente a esses usos da linguagem, manifesta-se para a elite uma outra dimensão da realidade que sugere conexões de sentido ao correlacionar o cenário das vitrines à série de exposições, uma vez visitadas, ativando a capacidade de organização sensível dos signos estéticos, atribuindo significado e criando valor simbólico como se fosse uma obra de arte.
Do infinito do cosmos real às galáxias imaginárias, o segredo está no sentir para ver essa realidade multidimensional. |